É, amigos, depois de muitas coisas acontecidas estes dias, como as eleições e o meu aniversário (hehehe), agora voltamos à nossa programação normal!
Mais uma dissecação no nosso atelier: a maravilhosa “Sem Fantasia”, composição de Chico Buarque, arranjo meu feito na quarta-feira de cinzas de 2002.
“Uau, que memória!” Alguns momentos eu guardo no coração e com eles vêm todas as lembranças, inclusive datas, horários, pessoas, cores, clima. O dia que fiz o arranjo de Sem Fantasia foi um destes dias. Não sei exatamente o porquê. Ou talvez saiba…
2002 foi um ano de muitas mudanças para mim. Foi um ano difícil demais, no qual fui obrigado a repensar toda a minha vida. Posso dizer que em 2002, quando tinha 24 pra 25 anos, terminou minha adolescência. Toda a minha vida que eu considerava ajustada e “correta” não era mais assim pra mim. Isso me fez sofrer imensamente, afinal, ter as bases derrubadas é devastador, em princípio. Mas, obviamente, após a tempestade vem a bonança…!
Era uma quarta-feira de cinzas, e era um dia cinza, nublado bem fechado. Eu lembro como se fosse hoje. Tínhamos somente um computador em casa e eu fazia os arranjos no Encore. Lembro que de tão fechado que o tempo estava eu fiquei no quarto de computador com a luz acesa desde que comecei a fazer o arranjo, isso lá pelas 3 da tarde.
Os dias daquele carnaval foram muito tristes pra mim. Eu carregava aquelas cinzas no coração aquele dia. Acordei tarde, almocei, dei um tempo, fui para o computador sem muita pretensão. Precisava fazer o arranjo de “Sem Fantasia”, música para o Vocal 16 que havia sido sugerida no grupo, numa daquelas votações de repertório que eu já citei aqui. Abri o programa e comecei a fazer freneticamente, sem pensar, só ia colocando as idéias quase que automaticamente no computador. E não ouvi nenhuma referência de gravação durante a confecção do arranjo, fui pelo que estava na minha memória. Memória musical, memória intelectual e memória afetiva.
O arranjo saiu pronto naquela tarde/noite, inteirinho, e não foi nunca mudado em nada.
Eu só conhecia a música de uma gravação do Oswaldo Montenegro, do disco “Letras Brasileiras”. Aqui tem a versão ao vivo num programa de TV, mas a gravação do disco é quase igual:
Ganhei o disco de uma grande amiga e irmã de coração, Lanuse, em 1998, de aniversário. Adorei o disco, mas a gravação de Sem Fantasia era impressionante, maravilhosa. A coisa das duas vozes juntas, do homem e da mulher amantes e afastados, que voltavam a se unir, a hora em que os dois cantam juntos, os berros do Oswaldo, que eu adoro, enfim, fiquei embasbacado com esta música. Não a conhecia e só fui conhecer outras gravações muito tempo depois.
O Laugi herdou esta música do Vocal 16 e apresentou-a no show ‘Jeito Brasileiro!’, em 2008. A gravação que vamos ter pra referência da dissecação é a deste show:
As idéias de arranjo que uso em “Sem Fantasia” acontecem quase que naturalmente no original da música. Assim, a parte estrutural não foi nada difícil de definir: já vinha pronta com o arranjo. O desafio para mim, quando comecei, foi a parte rítmica e a escrita dos acordes.
E de cara eu já comecei com uma ousadia: fiz o arranjo em 3/4. Como fui fazendo sem pensar, sem pegar o Cd original pra referência, nem nada, cantei a música na minha cabeça e organizei o ritmo em 3/4. Ouçam a gravação do Oswaldo e vocês verão que é um 4/4. Foi uma opção absolutamente intuitiva, porém, ao final, achei que ficou interessante, deu uma liga maior às frases, deu um outro caráter pra música.
Escolhi a tonalidade (F#m) baseado nas meninas. Neste tom, a nota mais grave seria o Fá#2 e a mais aguda o Mi4. Passeando a melodia por soprano e contralto, não teríamos problemas e o restante da melodia ficaria numa região boa. Na parte masculina, a melodia ficaria com os baixos, numa região grave, porém boa. No Vocal 16, eu cantava nos baixos, e tinha as notas, tanto eu como o outro baixo do grupo, o Fabão. A nota aguda seria um Dó#3, sossegado, bom pra fazer forte.
Tom definido, vamos à música. Como disse, ela foi saindo automaticamente. A idéia do início é que todas as mulheres representem a mulher da letra. Assim, a música começa com um uníssono que abre em 4 vozes femininas (0:00 a 0:18 da gravação do Laugi). As vozes masculinas entram aos poucos, logo depois que o quarteto feminino volta para o uníssono (em “você”, 0:18) e fazem somente a complementação harmônica para as meninas solarem, daí pra frente.
Uma coisa quase imperceptível no arranjo é que em 0:36 há um cruzamento de vozes entre soprano e contralto, na frase “você não vai crescer”. Quem faz a voz mais aguda nesta frase são as contraltos, que é a voz da melodia principal. Fiz isso por uma questão de timbre mesmo. Como a frase do soprano é numa região de pouco brilho para elas e é uma frase bem dissonante em relação à melodia principal, deixei com elas para que aparecesse menos mesmo, ou pelo menos aparecesse mais leve. Pra ajudar na percepção, a melodia das contraltos nesta frase é ré – mi – fá# – mi – ré – dó#, enquanto que a das sopranos é ré – mi – mi – dó# – si – si.
Nesta primeira parte eu utilizo uma escrita bem fechada de acordes, com todas as dissonâncias que tinha direito, pra gerar tensão mesmo. Quando chegamos no “vou” (1:03), chegamos ao primeiro acorde diminuto da canção. Na composição original, são estes acordes que dão todo o clima tenso da música. Eu sabia bem disso, mas eu tive dificuldade, pois não eram acordes que costumava usar em meus arranjos. A frase “te envolver nos cabelos” (1:05 a 1:09) foi arranjada na intuição.
Quando faço arranjos, utilizo-me bastante da intuição, mas também uso muito de conhecimentos de harmonia pra escrever. Sempre que me deparo com uma situação nova (como foi o caso dos acordes diminutos da “Sem Fantasia”), eu procuro resolver de forma mais teórica que intuitiva, pra não fazer nenhuma besteira. Mas é claro que a intuição comanda sempre, mesmo teoricamente.
Porém, no caso da frase “te envolver nos cabelos”, não houve nenhuma teoria. Escrevi a melodia na voz de soprano e fui arranjando as notas das outras de forma totalmente intuitiva, dentro do acorde diminuto. Analisando o resultado dessa intuição, usei cromatismo pra manter a tensão sem sair do clima diminuto. O resultado ficou bem interessante.
Outra curiosidade sobre este arranjo: ele já saiu com as dinâmicas todas prontas. Nem todos os meus arranjos saem assim. Nessa época, quase nenhum saía assim. O piano súbito em “pelo amor de deus” (1:15) foi concebido como uma súplica recolhida, chorada, segurando o grito que seria um “pelo amor de deus”. E isso já saiu assim de fábrica. Depois disso, faço um esquema simples de “banda vocal” até o “todo meu” que precede o interlúdio (1:31).
O interlúdio é onde posso criar, usar meus acordes preferidos, dar minha cara na música. Foi o que fiz: fui criando. Peguei o violão e fiz a harmonia do interlúdio. A primeira parte (1:36 a 1:39) é uma sequência de “du” simulando um violão. Abre pra “ah”, um pequeno tema no soprano para dar liga, e vem a parte grande e tensa do interlúdio. Baixos e sopranos entram na cabeça do compasso, com “ah” e tenores e contraltos respondem no tempo seguinte. O golpe de glote que acontece antes de cada “ah” é fundamental para dar a tensão que eu queria dar. Em 1:49 entra meu acorde preferido, um m7.9.11. Eu sempre tenho que colocar! :) E neste momento foi legal pois dá um brilho de tonalidade maior, porém breve, pois o dominante que se segue é altamente tenso e dissonante. Depois, pianíssimo súbito de novo, concebido na hora da confecção do arranjo.
A sequência da música é o dueto simultâneo, que é a beleza particular dela. As meninas fazem um novo arranjo em cima da mesma melodia anterior, enquanto os rapazes alternam a melodia entre baixos e tenores oitava acima, com mais partes para os baixos. Em 2:32, sopranos e tenores fazem a cama harmônica com “dus” e “ahs”, enquanto o dueto fica de baixos e contraltos. O “ah” é sempre determinante neste arranjo, ele sempre conduz o arranjo para um crescente.
Os tenores voltam a citar a melodia oitava acima, anunciando um crescendo. As meninas crescem também. E há um detalhe interessante neste crescendo. Aqui eu uso um negócio que costumo chamar de “o poder do uníssono”. Não é exatamente o uníssono de todas as vozes, mas na parte mais forte da música as vozes não abrem tanto, não se abre em cinco, seis, oito vozes. A música vai crescendo e o número de vozes vai reduzindo.
“Nas discussões com Deus” (2:59): nesta parte o cara quer mostrar mesmo as marcas que ganhou nas lutas contra o rei, em discussões com Deus… É o clímax da tensão. O acorde da palavra “Deus” (exatamente em 3:02) é: sopranos si3, contraltos fá#3, tenores ré3 e baixos dó#3, fazendo essa segunda menor arder intensamente. Na frase que se segue, os tenores e baixos representam aquele “poder do uníssono”, e vem em seguida mais uma vez um piano súbito, justo na recompensa dos homens, justo quando ele vem tolo para as meninas (3:11).
O que se segue são os dois, juntos. Suave, mais lento, em direção à paz do encontro após tantas desventuras. Os dois juntos estão representados nas duas vozes, uma masculina e uma feminina, na frase “vem que eu te quero” das moças e “eu quero a prenda” dos rapazes.
Note que é o único momento em todo o arranjo que isso acontece (3:13 a 3:15). Justo no reencontro dos dois, o uníssono entre as vozes feminina e masculina representa o encontro definitivo. Confissão do arranjador: não fiz de propósito! Confissão maior ainda: descobri isso agora, dissecando o arranjo.
Ao final, o acorde abre para o final denso, porém suave.
O arranjo conta musicalmente o que a letra diz. Mas faz isso em detalhes musicais muitas vezes imperceptíveis. O que importa é que é um arranjo que sempre emocionou a todos os que o cantaram e os que o assistem. E hoje, após quase 9 anos passados de sua criação, ainda me traz aquela emoção triste vivida naquele quarta cinza de 2002, em que meu coração também estava escuro, sombrio… porém emotivo, emocionado, e por isso emocionante, e por isso, vivo.
Obrigado sempre a você que lê todos estes compêndios que eu escrevo por post. Não nasci pra ser conciso, uma lástima em dias de 140 caracteres. Mas é assim que sei me expressar e posso compartilhar com vocês a minha arte e, mais que isso, os recônditos mais profundos e guardados da minha alma.
Até o próximo!
