Arranjo dissecado nº 5 – Sem Fantasia

É, amigos, depois de muitas coisas acontecidas estes dias, como as eleições e o meu aniversário (hehehe), agora voltamos à nossa programação normal!

Mais uma dissecação no nosso atelier: a maravilhosa “Sem Fantasia”, composição de Chico Buarque, arranjo meu feito na quarta-feira de cinzas de 2002.

“Uau, que memória!” Alguns momentos eu guardo no coração e com eles vêm todas as lembranças, inclusive datas, horários, pessoas, cores, clima. O dia que fiz o arranjo de Sem Fantasia foi um destes dias. Não sei exatamente o porquê. Ou talvez saiba…

2002 foi um ano de muitas mudanças para mim. Foi um ano difícil demais, no qual fui obrigado a repensar toda a minha vida. Posso dizer que em 2002, quando tinha 24 pra 25 anos, terminou minha adolescência. Toda a minha vida que eu considerava ajustada e “correta” não era mais assim pra mim. Isso me fez sofrer imensamente, afinal, ter as bases derrubadas é devastador, em princípio. Mas, obviamente, após a tempestade vem a bonança…!

Era uma quarta-feira de cinzas, e era um dia cinza, nublado bem fechado. Eu lembro como se fosse hoje. Tínhamos somente um computador em casa e eu fazia os arranjos no Encore. Lembro que de tão fechado que o tempo estava eu fiquei no quarto de computador com a luz acesa desde que comecei a fazer o arranjo, isso lá pelas 3 da tarde.

Os dias daquele carnaval foram muito tristes pra mim. Eu carregava aquelas cinzas no coração aquele dia. Acordei tarde, almocei, dei um tempo, fui para o computador sem muita pretensão. Precisava fazer o arranjo de “Sem Fantasia”, música para o Vocal 16 que havia sido sugerida no grupo, numa daquelas votações de repertório que eu já citei aqui. Abri o programa e comecei a fazer freneticamente, sem pensar, só ia colocando as idéias quase que automaticamente no computador. E não ouvi nenhuma referência de gravação durante a confecção do arranjo, fui pelo que estava na minha memória. Memória musical, memória intelectual e memória afetiva.

O arranjo saiu pronto naquela tarde/noite, inteirinho, e não foi nunca mudado em nada.

Eu só conhecia a música de uma gravação do Oswaldo Montenegro, do disco “Letras Brasileiras”. Aqui tem a versão ao vivo num programa de TV, mas a gravação do disco é quase igual:

Ganhei o disco de uma grande amiga e irmã de coração, Lanuse, em 1998, de aniversário. Adorei o disco, mas a gravação de Sem Fantasia era impressionante, maravilhosa. A coisa das duas vozes juntas, do homem e da mulher amantes e afastados, que voltavam a se unir, a hora em que os dois cantam juntos, os berros do Oswaldo, que eu adoro, enfim, fiquei embasbacado com esta música. Não a conhecia e só fui conhecer outras gravações muito tempo depois.

O Laugi herdou esta música do Vocal 16 e apresentou-a no show ‘Jeito Brasileiro!’, em 2008. A gravação que vamos ter pra referência da dissecação é a deste show:

As idéias de arranjo que uso em “Sem Fantasia” acontecem quase que naturalmente no original da música. Assim, a parte estrutural não foi nada difícil de definir: já vinha pronta com o arranjo. O desafio para mim, quando comecei, foi a parte rítmica e a escrita dos acordes.

E de cara eu já comecei com uma ousadia: fiz o arranjo em 3/4. Como fui fazendo sem pensar, sem pegar o Cd original pra referência, nem nada, cantei a música na minha cabeça e organizei o ritmo em 3/4. Ouçam a gravação do Oswaldo e vocês verão que é um 4/4. Foi uma opção absolutamente intuitiva, porém, ao final, achei que ficou interessante, deu uma liga maior às frases, deu um outro caráter pra música.

Escolhi a tonalidade (F#m) baseado nas meninas. Neste tom, a nota mais grave seria o Fá#2 e a mais aguda o Mi4. Passeando a melodia por soprano e contralto, não teríamos problemas e o restante da melodia ficaria numa região boa. Na parte masculina, a melodia ficaria com os baixos, numa região grave, porém boa. No Vocal 16, eu cantava nos baixos, e tinha as notas, tanto eu como o outro baixo do grupo, o Fabão. A nota aguda seria um Dó#3, sossegado, bom pra fazer forte.

Tom definido, vamos à música. Como disse, ela foi saindo automaticamente. A idéia do início é que todas as mulheres representem a mulher da letra. Assim, a música começa com um uníssono que abre em 4 vozes femininas (0:00 a 0:18 da gravação do Laugi). As vozes masculinas entram aos poucos, logo depois que o quarteto feminino volta para o uníssono (em “você”, 0:18) e fazem somente a complementação harmônica para as meninas solarem, daí pra frente.

Uma coisa quase imperceptível no arranjo é que em 0:36 há um cruzamento de vozes entre soprano e contralto, na frase “você não vai crescer”. Quem faz a voz mais aguda nesta frase são as contraltos, que é a voz da melodia principal. Fiz isso por uma questão de timbre mesmo. Como a frase do soprano é numa região de pouco brilho para elas e é uma frase bem dissonante em relação à melodia principal, deixei com elas para que aparecesse menos mesmo, ou pelo menos aparecesse mais leve. Pra ajudar na percepção, a melodia das contraltos nesta frase é ré – mi – fá# – mi – ré – dó#, enquanto que a das sopranos é ré – mi – mi – dó# – si – si.

Nesta primeira parte eu utilizo uma escrita bem fechada de acordes, com todas as dissonâncias que tinha direito, pra gerar tensão mesmo. Quando chegamos no “vou” (1:03), chegamos ao primeiro acorde diminuto da canção. Na composição original, são estes acordes que dão todo o clima tenso da música. Eu sabia bem disso, mas eu tive dificuldade, pois não eram acordes que costumava usar em meus arranjos. A frase “te envolver nos cabelos” (1:05 a 1:09) foi arranjada na intuição.

Quando faço arranjos, utilizo-me bastante da intuição, mas também uso muito de conhecimentos de harmonia pra escrever. Sempre que me deparo com uma situação nova (como foi o caso dos acordes diminutos da “Sem Fantasia”), eu procuro resolver de forma mais teórica que intuitiva, pra não fazer nenhuma besteira. Mas é claro que a intuição comanda sempre, mesmo teoricamente.

Porém, no caso da frase “te envolver nos cabelos”, não houve nenhuma teoria. Escrevi a melodia na voz de soprano e fui arranjando as notas das outras de forma totalmente intuitiva, dentro do acorde diminuto. Analisando o resultado dessa intuição, usei cromatismo pra manter a tensão sem sair do clima diminuto. O resultado ficou bem interessante.

Outra curiosidade sobre este arranjo: ele já saiu com as dinâmicas todas prontas. Nem todos os meus arranjos saem assim. Nessa época, quase nenhum saía assim. O piano súbito em “pelo amor de deus” (1:15) foi concebido como uma súplica recolhida, chorada, segurando o grito que seria um “pelo amor de deus”. E isso já saiu assim de fábrica. Depois disso, faço um esquema simples de “banda vocal” até o “todo meu” que precede o interlúdio (1:31).

O interlúdio é onde posso criar, usar meus acordes preferidos, dar minha cara na música. Foi o que fiz: fui criando. Peguei o violão e fiz a harmonia do interlúdio. A primeira parte (1:36 a 1:39) é uma sequência de “du” simulando um violão. Abre pra “ah”, um pequeno tema no soprano para dar liga, e vem a parte grande e tensa do interlúdio. Baixos e sopranos entram na cabeça do compasso, com “ah” e tenores e contraltos respondem no tempo seguinte. O golpe de glote que acontece antes de cada “ah” é fundamental para dar a tensão que eu queria dar. Em 1:49 entra meu acorde preferido, um m7.9.11. Eu sempre tenho que colocar! :) E neste momento foi legal pois dá um brilho de tonalidade maior, porém breve, pois o dominante que se segue é altamente tenso e dissonante. Depois, pianíssimo súbito de novo, concebido na hora da confecção do arranjo.

A sequência da música é o dueto simultâneo, que é a beleza particular dela. As meninas fazem um novo arranjo em cima da mesma melodia anterior, enquanto os rapazes alternam a melodia entre baixos e tenores oitava acima, com mais partes para os baixos. Em 2:32, sopranos e tenores fazem a cama harmônica com “dus” e “ahs”, enquanto o dueto fica de baixos e contraltos. O “ah” é sempre determinante neste arranjo, ele sempre conduz o arranjo para um crescente.

Os tenores voltam a citar a melodia oitava acima, anunciando um crescendo. As meninas crescem também. E há um detalhe interessante neste crescendo. Aqui eu uso um negócio que costumo chamar de “o poder do uníssono”. Não é exatamente o uníssono de todas as vozes, mas na parte mais forte da música as vozes não abrem tanto, não se abre em cinco, seis, oito vozes. A música vai crescendo e o número de vozes vai reduzindo.

“Nas discussões com Deus” (2:59): nesta parte o cara quer mostrar mesmo as marcas que ganhou nas lutas contra o rei, em discussões com Deus… É o clímax da tensão. O acorde da palavra “Deus” (exatamente em 3:02) é: sopranos si3, contraltos fá#3, tenores ré3 e baixos dó#3, fazendo essa segunda menor arder intensamente. Na frase que se segue, os tenores e baixos representam aquele “poder do uníssono”, e vem em seguida mais uma vez um piano súbito, justo na recompensa dos homens, justo quando ele vem tolo para as meninas (3:11).

O que se segue são os dois, juntos. Suave, mais lento, em direção à paz do encontro após tantas desventuras. Os dois juntos estão representados nas duas vozes, uma masculina e uma feminina, na frase “vem que eu te quero” das moças e “eu quero a prenda” dos rapazes.

Note que é o único momento em todo o arranjo que isso acontece (3:13 a 3:15). Justo no reencontro dos dois, o uníssono entre as vozes feminina e masculina representa o encontro definitivo. Confissão do arranjador: não fiz de propósito! Confissão maior ainda: descobri isso agora, dissecando o arranjo.

Ao final, o acorde abre para o final denso, porém suave.

O arranjo conta musicalmente o que a letra diz. Mas faz isso em detalhes musicais muitas vezes imperceptíveis. O que importa é que é um arranjo que sempre emocionou a todos os que o cantaram e os que o assistem. E hoje, após quase 9 anos passados de sua criação, ainda me traz aquela emoção triste vivida naquele quarta cinza de 2002, em que meu coração também estava escuro, sombrio… porém emotivo, emocionado, e por isso emocionante, e por isso, vivo.

Obrigado sempre a você que lê todos estes compêndios que eu escrevo por post. Não nasci pra ser conciso, uma lástima em dias de 140 caracteres. Mas é assim que sei me expressar e posso compartilhar com vocês a minha arte e, mais que isso, os recônditos mais profundos e guardados da minha alma.

Até o próximo!

Arranjo dissecado nº 4 – Sítio do Picapau Amarelo

É, amigos, vai seguindo então a votação. Enquanto isso, vamos dissecar mais um arranjo espetacular.

Primeiramente, como de costume, um pouco de história. A primeira vez que ouvi Banda de Boca foi nos famosos 30 segundos do Faustão, isso lá pelo ano de 2002, acho. Eles cantaram um trecho do “Eu só quero um xodó”. Como não assistia Faustão na época (e nem hoje), estava indo do meu quarto para a cozinha, quando passei na sala e vi o sexteto pronto pra começar. Eles cantaram e eu, confesso, não me impressionei muito. Pensei: “legal, um grupo acapella no ‘se vira nos 30’, boa sacada do grupo”. Achei eles bons, mas nada diferente do que eu já conhecia em termos de música vocal.

O próximo contato que tive com eles foi no maravilhoso, porém infelizmente extinto, FÓRUM RIOACAPPELLA DE MÚSICA VOCAL, promovido pela brilhante Crismarie Hackenberg (BR6), no Rio de Janeiro, em 2003. Eles ofereceram um masterclass no Fórum. E foi neste dia que eu fui apresentado a este magnífico arranjo que iremos dissecar agora.

O Banda de Boca é um grupo “what you see is what you get”. Nisso, eles são os melhores do Brasil, disparadamente. O que você ouve no disco eles reproduzem FIELMENTE no show, sem nenhuma desafinação, sem nenhuma diferença de timbre, nada. Isso é fantástico! Assim, a execução do arranjo no Fórum foi idêntica a essa gravação logo abaixo.

Quem me passou esta gravação foi minha amiga Nina Kohlsdorf, que entrou em contato com os caras para comprar o primeiro CD deles. O CD estava esgotado, mas o “guitarrista vocal” Fábio Eça mandou para a Nina o Cd via internet. No Cd original, não existia a gravação do “Sítio”. Eu imagino que eles não tenham gravado por não conseguirem pagar os direitos autorais. É a única razão plausível para um arranjo tão espetacular ter ficado de fora de todos os CDs do grupo até hoje. Mas, no arquivo que o Eça mandou pra Nina, tinha uns bootlegs, entre eles, o Sítio. Esta gravação aqui:

Vamos a ele!

O arranjador do grupo é o Maestro Hiran Monteiro. E vejam o que ele nos apresenta logo de cara: que acorde inicial é esse? Fantástico! Do grave para o agudo: sol  – mi – lá – dó – ré – fá#. Altamente tenso, porém lindíssimo. Eu nunca tinha visto nem ouvido isso antes (pelo menos não conscientemente). Perfeito para chamar a introdução: uma variação do tema original da flauta, porém com variações rítmicas e de acordes. Tudo isso de 0:00 a 0:12.

Vejamos o tema original aqui (uma parte dele, com uma vinhetinha páia antes, mas foi o que eu achei):

A música tem quatro estrofes, entremeadas pelo refrão “Sítio do Picapau amarelo”. Em cada uma destas estrofes, o Hiran usa um recurso diferente, mantendo o refrão igual. Na primeira estrofe, um jazz ao estilo dos quartetos vocais de jazz dos anos 40-60, com escrita homofônica e acordes bem fechadinhos, cheios de dissonâncias. Arno Jr. faz o walking-bass e o próprio Hiran faz o chimbauzinho vocal. Confira em 0:13 a 0:20 do vídeo do BdB.

“Tchuru, tchu-tchu!” Este vocalise conduzirá sempre ao refrão com levada funky, uma excelente sacada na adaptação acapella. O segundo “sítio do pica-pau amarelo” do refrão (em 0:28), homofônico, tem uma sacada de gênio que passa despercebida: ele começa com o acorde numa formação mais aberta, e na palavra “pau” todos fazem um acorde mais agudo e bem fechadinho, o que dá a sensação de um grito, mas sem ser gritado. A voz do baixo é que faz o salto maior e é mais perceptível.

Logo após o refrão, volta a levada funky agora com o tema da flauta, mas com outro ritmo: 0:35 a 0:45.

Segunda estrofe: um trabalho mais simples, pra dar contraponto ao que vai se seguir no restante da música. Ele trabalha com duetos nos primeiros versos e um solo no terceiro, com a base harmônica feita em “u” pelo restante do grupo. Depois, volta o refrão, idêntico ao outro, e o tema da flauta, também igual. Isto entre 0:46 e 1:18.

Na terceira estrofe, uma grande alegria para nós, os pobres baixos, destinados aos tumtuns e pampans da vida! Representados pelo sensacional e afinadíssimo Arno Jr., nós ganhamos um solo! Uma estrofe de solo inteira para o Arno Jr. desfilar o seu grave: 1:18 a 1:26. A base harmônica faz um “rum-rum” que parece uma orquestra de cordas. Com a voz grave do Arno, ficou muito legal o clima de “universo paralelo” e mistério. Em seguida, repetição do refrão e do tema. Repetição igual! Igual! :)

Chegamos à última estrofe e aqui o Hiran não poupa nada da sua genialidade. Cada verso com seu arranjo. “No país da fantasia”: um axé ‘olodunesco’. “Num estado de euforia”: uma espécie de ‘ska’ frenético. “Cidade polichinelo”: climão de sertão nordestino, com o Arno simulando um baixo sintetizado e as meninas colorindo de mixolídio a parte. Genial! 1:50 a 1:59.

E aí, aquela repetição, igu… Peraí. Hã? Que foi isso? Meu CD tá estragado. Deixa eu limpar. Põe de novo. Vamos lá, repetição igu… Eita! De novo? Caraca, vou ouvir no computador. Ouvindo, aquela repetição igu… Eita! Eita!

Juro que se eu não tivesse assistido o arranjo ao vivo antes e presenciado esta idéia ABSURDAMENTE GENIAL com os caras no palco, eu teria pensado que o mp3 tinha chegado com defeito. Mas não. Foi o toque de mestre, de gênio. Uma vez igual, duas iguais, três iguais, na quarta… Um detalhezinho – entre aspas – “bocó” e o arranjo se coroa como, para mim, para minha modesta opinião, um dos mais sensacionais que eu já ouvi na vida: 2:07.

Podem me chamar de bobo, mas eu confesso que me emociono ouvindo isso. Me emociono mesmo, de correr lágrima. Me emociono de tão legal que eu achei, de tão genial. Isto num arranjo que eu já estava achando soberbo, espetacular.

Depois de tanta coisa fantástica, pra que mais? O final é simples e direto. O que fica na cabeça, ao terminar o arranjo, é justamente aquele detalhe primoroso. Numa música espetacularmente escolhida, um arranjo super criativo e ousado.

Palmas e mais palmas para Hiran Monteiro, um dos gênios brasileiros do arranjo vocal, um gênio não reconhecido, infelizmente. Infelizmente para a música brasileira, porque para mim, que o conheço inclusive pessoalmente e admiro demais, é muita felicidade.

Banda de Boca para sempre! Você não conhece? Faça uma busca simples no pai de todos, o Google. E no YouTube também, nos vídeos relacionados. Pesquise, conheça, divulgue! Isto é nosso, é do nosso país!

Abraços e até o próximo!

P.S.: Quésia Santos, contralto do Laugi (www.laugi.com.br – http://www.twitter.com/grupolaugi), é baiana de Salvador e participava da mesma igreja dos membros do Banda de Boca, conhecia-os todos e convivia com eles. Bom pra nós que temos a Quésia para fazer esse link, mesmo que indireto, com este maravilhoso grupo.

P.S.2, EDIT: Banda de Boca foi indicada ao Grammy latino de melhor disco infantil, com o “MPB pras Crianças”!!!!! Vamos todos torcer muito!!!! Eles merecem!!!

A correria do dia-a-dia…

…deu esta pequeníssima pausa de 4 dias!

Estes dias estou muito enrolado de trabalho, mas não esqueci do blog! O próximo arranjo a ser dissecado será SITIO DO PICAPAU AMARELO, do Banda de Boca. Aguardem!

Por ora, escolham UM dos 3 arranjos abaixo para ser o arranjo dissecado subsequente, depois do ‘Sítio’:

Eis os links:

Desta vez, faremos apenas um deles! Depois utilizaremos o campo de comentários para postar novos arranjos, ou seja, sugira!

Abraços! VOTEM!

Arranjo dissecado nº 3 – Toada (Na direção do dia)

Vamos trazer ao meu atelier algumas produções que não são minhas mas que me influenciam um monte. Pra começar, nada melhor que Boca Livre e o mestre Maurício Maestro.

Recomendo que leiam este post para entender meu lance com o Boca Livre (não consegui de jeito nenhum deixar o link clicável – por favor, copie e cole no seu navegador): http://psmusicideas.blogspot.com/2009/06/best-uv-boca-livre.html

Então, lendo o post acima, dá pra ver o tamanho da importância deste grupo na minha música. Dissequemos, então, uma das mais famosas obras de arte dele: a música “Na Direção do Dia”, depois conhecida como “Toada”.

Antes de qualquer coisa, ouça esta versão abaixo. É a versão ORIGINAL, gravada pelo grupo Cantares num compacto de 1976, que tinha Zé Renato, Cláudio Nucci, Juca Filho, entre outros (os 3, inclusive, compositores da Toada). Ouça com atenção para que possamos dissecar bem o arranjo:

Agora, vamos à primeira gravação do Boca Livre, a mesma Toada, porém já com os arranjos do grupo:

A música é indiscutivelmente maravilhosa. Mesmo aqueles que não curtem o estilo reconhecem isso. A melodia e harmonia originais da música são ímpares, fazem dela uma canção ao mesmo tempo simples e complexa. Aliás, saber fazer música complexa chegar ao gosto do grande público é privilégio de poucos GÊNIOS. Caso de Zé Renato, nas composições, e de Maurício Maestro, nos arranjos. Eu me referencio totalmente nesse lance, é esse meu objetivo de vida!

Vocalmente falando, tudo começa simples no arranjo do Boca Livre. Solo do sensacional Zé Renato na primeira estrofe, uníssono (o maravilhoso uníssono do Boca Livre) na estrofe que se segue, até a abertura do acorde em “bem querer”.Primeiro lance de gênio do Maurício: a melodia principal (confira na gravação original) não é a mais aguda do acorde! Parece uma bobagem, mas faz uma diferença enorme, pois a voz aguda repousa na nona do acorde. A nona SEMPRE dá um brilho a qualquer acorde maior. Vindo por cima da melodia (que está na tônica) e ainda fazendo esse intervalo de segunda maior, fica mais brilhante ainda. O acorde está em 0:45 do link do Boca Livre.

A próxima estrofe abre apenas em duas vozes, num contracanto curto (“morena…tão bonita” – 0:55 a 0:59), porém já dá um efeito enorme, por causa do uníssono predominante até aí. Quando falam por aí que na música “menos é mais”, é tipo isto que querem dizer.

A volta ao tema vem com os acordes a 4 vozes, com a cara do Maurício Maestro (1:06 a 1:25). Ele tem uma concepção totalmente melódica na construção dos acordes vocais, ele compõe novas melodias que se encaixam na principal. E eu não conheço ninguém que faça isso com tanta maestria. Neste caso, ele utiliza bastante a volta para o uníssono, depois abre, depois volta. Aprendi isso com o mestre e utilizo bastante este recurso em meus arranjos.

A próxima estrofe volta ao uníssono e abre o acorde no “bem querer”, como na primeira vez. Na repetição da parte B, também é praticamente uma repetição, porém com a adição de um “ô ô” no início que já faz a diferença (1:46). Perceba que ele vem adicionando os detalhes muito delicadamente, acompanhando o crescendo natural da música.

E aqui, chegamos à marca do mestre, o toque pessoal do Maurício numa obra que por si só já era espetacular. Aqui, na gravação do Cantares, a música vai para uma parte instrumental vocalizada, baseada em trechos já existentes na harmonia da música (2:44 no primeiro link acima, do Cantares). No Boca Livre, Maurício Maestro utilizou a harmonia da parte B e compôs duas melodias entrelaçadas, cantadas em “ô ô”. As melodias dele são tão maravilhosas quanto a original. Elas partem do uníssono (2:02 a 2:06) para um outro desenvolvimento, cada uma indo numa direção: uma para o agudo e outra para o grave, terminando em 2:17.

Um adicional de sabor nestas melodias é o fato de que o Maurício LITERALMENTE entrelaçou elas. Como? Baseando no ouvido, podemos perceber as duas melodias (2:06 a 2:17), uma mais grave e outra mais aguda. Porém, na partitura (disponível no livro SongBoca), um mesmo cantor faz um compasso de uma melodia e um compasso de outra. Isso só é perceptível com fones de ouvido e muita, muita atenção. Antes eu pensava que era erro, mas ouvindo a gravação bem atentamente dá pra perceber que uma voz ora está no agudo, ora está no grave, e no último acorde, antes do “Vem”, cada um está na sua tessitura. E isso, muito discretamente, deu a essa parte a sensação do entrelaçamento entre as duas melodias. Simplesmente absolutamente genial!!

(Obs.: para facilitar a percepção, a flauta está sempre fazendo a melodia mais aguda neste trecho.)

E agora, a marca da genialidade harmônica do cara: olha aí o exemplo clássico da mobilidade dos acordes m7.9 que eu vivo falando! Ele sai do E7M.9 para um Fm7, aproveitando perfeitamente as notas comuns a estes dois acordes. Depois, segue a sequência de acordes m7.9, subindo em quartas: Fm7 -> Bbm7.9 -> D#m7.9 ->G#m7.9 ->C#m7.9 ->F#m7.9, que já é o IIm de Mi maior e pôde ir pro V grau, voltando maravilhosamente para Mi maior, tom original da música. Tudo isso está entre 2:18 e 2:34.

Vocalmente, ele usa o “vem morena” em duas vozes, uma aguda e uma grave, intercalados, encaixando melodicamente o motivo dentro dos acordes m7.9. O que dizer? Completamente genial, o resultado é divino, crescente, e a volta para o tema principal é apoteótica. Tudo sem colocar muita coisa, tudo feito na inteligência e na filosofia do “menos é mais”. E, neste caso, como usa-se muitos uníssonos e trechos a duas vozes, quando o acorde abre em 4 vozes, fica imenso!

Na volta pro tema, o Maurício faz de novo cruzamentos de vozes: a 3ª e a 4ª voz é que fazem o “a a” agudo (2:34 a 2:53). As duas vozes mais agudas fazem o tema. Esse vocalise de cima, em uníssono, é lindo, utiliza as notas certas dos acordes, tudo na simplicidade, na famosa maciota. E emociona!

Ao final, uma conclusão como a música é: singela, doce, deliciosa, porém emocionante. Simples! Simples assim!

Toada foi gravada no primeiro disco do Boca Livre, em 1977, SEM GRAVADORA, numa época em que não existia “home studio”. O disco estourou e o carro chefe foi mesmo Toada. Venhamos e convenhamos: bons tempos em que a boa música vendia! Toada merece! Os compositores: Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho também merecem!

E o “Mais que Maestro” Maurício merece tudo! Ele mostra sua genialidade soberba nos pequenos detalhes. Ele tem o poder de deixar uma música, seja ela boa ou ruim, muito melhor com seu arranjo. Viva Maurício Maestro, Zé Renato e o Boca Livre!

Abraços e até o próximo arranjo: SÍTIO!

PS: Todas as sugestões que chegam nos comentários estão sendo anotadas, ok? Não precisa ser só meu arranjo, pode ser de outros monstros do arranjo vocal mundial. Sugiram!

Arranjo dissecado nº 2 – Kid Cavaquinho

É isso! Kid Cavaquinho foi eleito para a 2ª dissecação!

Antes de tudo, quero dizer que fico HONRADÍSSIMO de que o meu singelo arranjo tenha ganhado de lavada a votação, ainda mais diante de GÊNIOS como Hiran Monteiro e Maurício Maestro. Muito obrigado! :)

Sempre começamos contando um pouco de história, e eu gosto daquelas histórias bem guardadinhas lá no fundo da memória!

Eu sugeri Kid Cavaquinho como repertório para o Vocal 16, isso acredito que em 2002. Como fazíamos votações para escolha das músicas, ela perdeu. Mesmo assim, cheguei a começar um arranjo dela na época. Acho que escrevi um compasso só, tentando simular a levada de um cavaquinho. Não deu certo e eu larguei de mão.

O Vocal acabou, o Laugi iniciou, e veio o ano de 2007, um ano de reformulação no repertório do grupo, que estava cantando as mesmas músicas já havia uns 2 anos, à época. O Kid renasceu na minha cabeça, lembrei que havia sugerido ele ao Vocal e achei que desta vez poderia sair um arranjo mais interessante. Lembro que sentei pra começar a fazer o arranjo no começo da tarde, por volta de umas 14h. Às 17h eu já tinha o arranjo completo, prontinho. E nunca mais foi mudado nada nele.

Se o Medley Ed Motta foi aquela demora toda, o Kid saiu todo de uma vez, as idéias vindo e eu colocando no Encore. E tudo deu certo!

Agora, comecemos a dissecação. Eis a música em gravação original:

Lembro que, quando criança, meus pais ouviam um disco do João Bosco e quando tocava essa música eu achava muito legal. Imaginava as cenas que a letra ia dizendo. Achava engraçado o lance do “Genésio, a mulher do vizinho…”. É uma música “brava”, mas muito engraçada por causa disso. E musicalmente é muito legal, o ritmo, a melodia.

Sempre vi humor nesta música, e comecei a ecrever o arranjo pensando nela como uma peça de humor, e não como uma música simplesmente. Na época do Vocal, não tinha essa visão. Tentei fazer um arranjo musical e não saiu nada. Quando, em 2007, decidi pela ênfase na cena, tudo ficou mais claro na cabeça, o arranjo fluiu naturalmente.

Eis o link do arranjo que vamos usar como referência:

A primeira parte foi concebida para ser mais lenta, mais simples e mais direta (no video, fica entre 0:00 e 0:30). A tonalidade é Ré maior, original. A escrita das vozes em homofonia, com os acordes bem fechados. Segui a harmonia original e não coloquei dissonância nenhuma. A idéia cênica era começar a música de forma simples e direta. Porém, ainda sem um ingrediente que faz a música ser especial também: o andamento. A gravação original do João Bosco não é muito rápida. Mas eu sempre achei ela interessante por ser rápida, por ser meio “trava-língua” se for executada mais rápida. E inseri isso mais pra frente.

De 0:31 a 0:37 é um encerramento dessa parte lenta intodutória, onde eu uso um recurso que adoro: vozes entrando e formando um acorde. Neste caso, é um acorde de D7, simples e com cara de final “blueseiro”. Mas aí eu utilizo a frase dos baixos como início da repetição da primeira parte, e esta repetição mostra outra cara da música.

O formato que uso entre 0:38 e 0:57 consiste em: baixos fazendo a melodia principal e cada uma das outras vozes fazendo melodias e ritmos diferentes, porém complementares. Tudo isso com andamento acelerado, o que deixa as frases engraçadas. O “pega, pega” de tenores e contraltos é o toque surpresa da parte.

Depois das palmas, a parte do Genésio. Era a parte mais engraçada que eu achava quando era criança. Imaginava mesmo uma cena do povo falando mal do cara, aquela fofocaiada. Aí entrou o “qua-qua-qua”, perfeitamente encaixado na convenção rítmica que a música tem neste momento. Depois, segue um formato básico de banda vocal, com sopranos na melodia e as outras vozes fazendo “tumgatchicumtum” como se fossem instrumentos. Tudo isso está entre 0:57 e 1:16.

Até agora não mexi nada, nada, nada na harmonia da música. Brinquei bastante com ritmo, texto e andamento. Mas um arranjo meu não pode ficar sem pelo menos uma brincadeira harmônica!

Uma cena que me veio na cabeça quando fazia o arranjo era justamente a cena de algum cantor de barzinho, bem brega, fazendo uma versão “romântica” de Kid Cavaquinho em bossa nova. Seria uma cena engraçadíssima, com o solista interpretando bem bregamente a música enquanto o coro faria as vezes de “violão”.

A cena veio instantânea na cabeça, mas… como executá-la musicalmente no arranjo?

Utilizei a mesma idéia de vozes entrando que uso entre 0:31 a 0:37, mas agora começando dos baixos e abrindo um acorde absolutamente jazzístico que eu também adoro usar: acorde maior com 7ª maior e nona em 1ªa inversão (no caso, um Ab7M.9/C).

Esse acorde é “primo” dos m7.9. Na verdade, é como se fosse um m7.9 na segunda inversão, porém, sem a tônica. Isso dá a esse tipo de acorde a mesma “mobilidade” dos m7.9 e dos ‘sus’.

No arranjo, eu literalmente “taquei” ele dentro. A frase do baixo (ói que foi só pegar no cavaqui…) termina na nota dó. Usei o dó, então, pra ser o baixo do Ab7M.9/C. E isso foi experimentação pura, não usei nenhuma teoria pra por ele aí. Foi realmente um acorde “enfiado”, pois ele não tem absolutamente nada a ver com o Ré maior que estava rolando o tempo todo. Este acorde aparece em 1:21.

Depois, eu “arrasto” ele no trecho “ca…va…qui”: Ab7M.9/C -> Bb7M.9/D -> B7M.9/D#, o mesmo acorde um tom acima e depois meio tom. E aí eu tinha que ir pra uma tonalidade. Usei o B7M.9/D#, então, como IV grau de Fá# maior, coloquei no “nho” um acorde dominante bem dissonante (C#7.9.#11.13) e fui, NA RAÇA, pra Fá# maior!

Digo “na raça” porque foi uma modulação muito sinistra que simplesmente saiu! Ficou legal no meu ouvido, ficou bem louca, eu me amarrei e mandei ver. “Depois a gente vê um jeito de voltar”, pensei.

Segui a idéia do cantor de boteco. Peguei o violão e re-harmonizei bossanovisticamente o tema. Peguei a levada do violão e coloquei no arranjo. E, re-harmonizando o tema, vi que o último acorde (um C#sus, aparece em 2:01) poderia me levar para Mib maior (no “ge…ral” que segue)! Foi excelente, porque é meio tom acima do tom inicial da música e eu poderia usar tudo o que usei antes sem problemas de tonalidade. Para o público, parece só que voltamos para o que acontecia antes. E é essa a idéia, mesmo estando meio tom acima.

E aí vem o negócio do “quase-palavrão”. Quando decidi que faria o arranjo de Kid Cavaquinho, aquela imagem da fofocaiada veio imediatamente na minha cabeça. E a idéia de colocar frases de resposta nessa convenção rítmica, que antes foi qua-qua-qua, veio instantânea. E aí a conversa (Genésio! Diga lá. A mulher do vizinho… sei quem é! Sustenta… ‘podicrê’! Aquele vagabundo…) descamba no “fé-la-da-pugatchicumtum”. E as pessoas adoram, riem muito.

Daí pro final foi só alegria, repeti o que rolou no início, só que agora em Mib maior. Fiz um pequeno break em 2:40. No final, um ‘berreiro’ bem simples, no ‘Genésio’, bem agudo e aberto, um final pop, por assim dizer.

Kid Cavaquinho estreou no show Laugi Convida em junho de 2007, e de lá pra cá tem sido carro chefe de nosso repertório. Eu gosto bastante dele, por conseguir atingir todos os públicos. Quem entende e tem ouvido mais apurado pra música percebe os acordes e as modulações, quem não tem tanta exigência assim se diverte com as cenas e as concepções humorísticas dentro do próprio arranjo.

Seguindo a sugestão de algumas pessoas, vou utilizar a ordem da votação para fazer a dissecação dos outros dois arranjos. O próximo será TOADA, maravilhosa canção do Boca Livre num arranjo ímpar de Maurício Maestro! Aguardemmmmmm…

E comentem!

Abraços e até a próxima!

Enquete sobre próximo arranjo dissecado, votem!

Votem na enquete logo abaixo! Antes aqui estão os links:

Kid Cavaquinho:

Sítio do Picapau Amarelo:

Toada:

Votem na enquete aqui:

Logo, logo ela será encerrada e faremos a DISSECAÇÃO Nº 2!!

VOTEM!

Arranjo dissecado nº 1 – Medley Ed Motta

Este foi um ponto crucial na minha vida como arranjador. E o “Medley Ed Motta” será o meu primeiro arranjo a ser “dissecado”.

Aliás, este é um dos lances deste blog também: dissecar arranjos! Vamos começar com um meu que mudou minha vida: o Medley de músicas do Ed Motta.

Um pouco da história: fiz ele em 2001, para o Vocal 16. Sua versão final só ficou pronta mesmo em 2002, antes ele tinha um final diferente, lento. Foi uma idéia da Milene, que era do Vocal. E foi dela também a idéia de apresentar o arranjo ao próprio Ed depois do show dele, em 2002. Gravamos em MD na casa do João Paulo, sem sopranos 2. Eu fiz a voz de soprano 2 em alguns acordes mais importantes. E fomos em peso, o grupo todo, ao show dele no Teatro da Caixa. Ao final, cantamos. Ele…

…ficou maluco com os primeiros acordes!

Eis esta gravação, em primeiríssima mão:

A sequência inicial de acordes é uma descendente de acordes ‘sus’ e ‘m7.9.11’. Estes tipos de acordes são os acordes que mais amo e mais ponho em meus arranjos. São acordes altamente independentes e que podem levar a harmonia pra qualquer lugar. E qualquer combinação entre eles soa agradável e surpreendente. Encaixei eles na melodia do “Duas da manhã” e saiu isso:

Asus A7(9) |  G#m7.9.11  |  F#m7.9.11  |  Em7.9.11  |  Dmaj7(9)  |  C#m7.9.11  |  F#sus  || 0:00 a 0:10 do vídeo acima.

O Ed, ao ouvir a introdução, mandou parar antes de chegar no “parap – parap” do F#sus. Ele ficou louco, falando “que que é isso? Fulano, me traz uma cerveja, vem ouvir isso aqui! Que acorde é esse do começo, é um sus? Deixa eu ouvir isso de novo, mas agora de olho fechado!”

Foi um delírio pra mim, uma das coisas mais emocionantes de minha vida. Ele entendendo o lance dos acordes foi demais!

Depois desta introdução, entramos no tema instrumental inicial da música “Baixo Rio”. Deixei o tema com as contraltos e coloquei sopranos e tenores fazendo a base harmônica. O final da frase no arranjo ficou diferente da frase original simplesmente porque eu não conhecia a gravação original, eu conhecia a música de um “Luau MTV” que eu tinha gravado em VHS. Em 2008, decidi voltar a frase original por achar que tem mais a ver com a música. No vídeo acima, o trecho está de 0:10 a 0:28.

O trecho na música original:

Daí pra frente, segue o arranjo da Baixo Rio, explorando partes de “banda vocal” (um naipe com o lead vocal, um naipe com o baixo e os outros naipes com a base harmônica) alternadas com partes de homofonia, ao estilo backing vocals. Esta alternância de formatos segue durante o arranjo inteiro.

Na ponte para o Vendaval, também uso um tema instrumental que existe na música original do Ed:

Na Vendaval, faço uma coisa arriscada, mas que soou muito legal: um quarteto feminino nos backings e todos os homens em uníssono na melodia. No vídeo lá em cima, fica entre 1:26 e 1:59. Este quarteto foi reescrito em 2008. Abaixo, mostro a nova versão, com o Laugi, e você poderá comparar. Na versão nova, preferi uma escrita mais fechadinha, com destaque aos clusters.

Versão nova, com o Laugi (o quarteto feminino alterado começa em 1:38 deste vídeo):

Ir do Si maior de “Baixo Rio”/”Vendaval” para o Ré  maior de “Colombina” não foi muito difícil: o próprio Ed usa empréstimo modal ao usar o IV grau menor nestas músicas. O IVm de Si virou o IIm de Ré, tom original de “Colombina”. Utilizei o Asus, vindo do Em7.9, já como V grau de Ré.

Em “Colombina”, basicamente sigo o formato banda vocal, sem muita firula. Pra ir pra “Fora da Lei” é que eu tive que pensar um pouco mais pra encaixar a harmonia. E consegui ter uma boa sacada.

Analisando a harmonia de Fora da Lei original, ele usa Sol maior nas estrofes, com alguns acordes de empréstimo modal. No bridge (“Mia, arranha o céu”), ele vai para Mi bemol maior. Ora, Mib é meio tom acima de Ré, o tom de “Colombina”. Fazer “Fora da Lei” meio tom abaixo do tom original e usar a ponte do “Mia, arranha o céu” em D resolveu meu problema. Assim, o “Fora da Lei” começando desta parte ficou no mesmo tom de “Colombina”.

Agora, um fato histórico! Eis o FINAL ORIGINAL do medley, aquele que eu disse que era mais lento!

No arranjo versão final, pode ver que ficou bem mais dançante e empolgante. Em 2001, na estréia deste arranjo, foi este final aí que fizemos. Depois, em 2002, eu mudei o final.

Usei a mesma harmonia dos 3 primeiros compassos do 2º sistema desta part ao lado, mas emendei com a parte mais famosa do Fora da Lei: o “daraê, dará”. E também usei uma frase do próprio Ed com as meninas, esta aqui:

Contraltos no tom dele, sopranos terça acima. E finalizei pra cima o arranjo.

Foi um arranjo feito com muito cuidado, demorou muito pra ficar pronto. Acho que levei uns 2 meses pra entregar a primeira versão. E ainda ficou ruim o final, precisando ser refeito. Porém, depois de acertado o final, ficou muito interessante e quem ouve e canta, gosta muito.

Quem quiser ouvi-lo ao vivo, é só seguir @grupolaugi no Twitter e ficar atento às novidades de shows do meu grupo. Este medley, que ano que vem completará 10 anos, está firme e forte no repertório!

Até o próximo arranjo!